A história do Mercado do Pirajá começa em 1937, quando Francisco Dias Sobreira construiu dois imóveis à margem de uma das estradas que ligavam Juazeiro a Barbalha, passando pela Fazenda Lagoa Seca e pelas terras dos Teresios, visando à compra e venda de algodão, ao escoamento de sua produção do engenho de cana e aviamento de farinha, agregando também outras mercadorias.
Ali, Chiquinho de Abel, como era conhecido, manteve-se até meados de 1945, quando repassou o empreendimento a José Tavares Pirajá, amigo próximo e cunhado de sua esposa. O dinamismo, a boa recepção e os preços baixos de Pirajá fizeram da venda um ponto de encontro dos comboieiros da região.
Um ponto curioso é que Francisco Dias Sobreira residia às margens do Riacho das Timbaúbas, bem distante de sua casa comercial, e é provável que o grande atrativo, além da movimentação rotineira da estrada carroçável que o levou a estabelecer comércio naquelas paragens, tenha sido as obras do ramal da Estrada de Ferro de Baturité, que ligou Juazeiro do Norte a Barbalha e se arrastou por anos, tendo sido finalizado apenas em 1950.
1950 também foi o ano do lançamento da pedra fundamental do Santuário de São Francisco das Chagas, que, junto à estação ferroviária, inaugurada em 1926, e à Usina de Algodão Anderson Clayton, inaugurada em 1935, foi um dos grandes vetores de desenvolvimento do que hoje conhecemos como os bairros Franciscanos, Pio XII e Pirajá.
Nesse sentido, Francisco Dias Sobreira teve notável influência. Devoto do Padre Cícero, cedia lotes dentro de sua fazenda para que romeiros que decidissem se estabelecer em Juazeiro pudessem edificar moradia.
É importante destacar que o local onde o mercado está situado não é o mesmo onde a venda de Francisco Dias Sobreira e José Pirajá havia sido edificada. O Mercado do Pirajá foi erguido no terreno outrora ocupado pela CAVAN, empresa responsável por fabricar o posteamento em concreto utilizado em boa parte da expansão da rede elétrica propiciada pela chegada da energia gerada pela CHESF, em Paulo Afonso, a partir de 1959, com a instalação do primeiro poste na Av. Padre Cícero, nas imediações do cruzamento com a Av. Carlos Cruz, conforme marco em pedra ainda existente na região.
A ascensão populacional da região se intensificou principalmente durante as décadas de 1960 e 1970, a ponto de, semanalmente, feirantes organizarem suas bancas na atual Av. Ailton Gomes para atender à população que, distante do mercado central, em uma época em que automóvel próprio e até o transporte coletivo eram artigos praticamente ausentes do cotidiano da população juazeirense de menor renda, em grande parte residente naquela área da cidade, aderiu à feira. Paralelamente, o poder público organizou a Feira do Peixe também no bairro Pirajá, conferindo ainda mais fôlego ao tradicional comércio da região.
No final da década de 1970, Ailton Gomes de Alencar, prefeito municipal de 1977 a 1982, urbanizou as margens da estrada de ferro que seguia até Barbalha, batizando a avenida com seu nome, medida que ampliou o acesso ao bairro e, consequentemente, fortaleceu a feira da região.
Na gestão seguinte, encabeçada por Manoel Salviano Sobrinho, que assumiu a prefeitura municipal em 1983, foi atendido o anseio por um mercado no Pirajá. O mercado central não suportava mais a demanda de feirantes e compradores, e a feira do Pirajá exigia ampliação e organização.
As obras se estenderam até 1987, quando um mercado de arquitetura moderna e funcional foi entregue à população. Dr. Salviano também foi o responsável por duplicar a Avenida Ailton Gomes, aproveitando o espaço deixado pela linha férrea, que estava desativada havia mais de uma década.
O Centro de Abastecimento Governador Gonzaga Mota, nome oficial do Mercado do Pirajá, teve tamanha adesão que, em minha infância, lembro de as pessoas se referirem a ele como CEASA, sigla dada aos grandes centros de distribuição de hortigranjeiros organizados pelo governo federal a partir da década de 1960. De fato, o Pirajá até hoje cumpre essa função, recebendo a produção rural não somente de Juazeiro do Norte, mas de toda a região do Cariri, além de cidades de Pernambuco e da Paraíba.
Tamanha demanda abriu margem para a politicagem. Ao longo das décadas, permitiu-se que o mercado fosse sendo “incrementado” com penduricalhos e puxadinhos; nem mesmo o canteiro central foi poupado. Como resultado das ações dos políticos “bondosos”, que admitiram a ocupação irregular e desenfreada do mercado, há hoje um equipamento sufocado, sem vagas de estacionamento e sem circulação adequada de ar e luz, deixando os próprios feirantes em situação lúgubre, e as gestões municipais recentes reféns de uma herança maldita, um problema multimilionário a ser resolvido.
O Mercado do Pirajá foi, sem sombra de dúvidas, o vetor máximo de ocupação daquela região. Hoje, o bairro tem vida própria, não se limitando às atividades do mercado.
Ainda na década de 1990, e mesmo em meados dos anos 2000, o mercado merecia ter sido ampliado e melhor ordenado; optou-se, porém, pelo caminho mais fácil, sem desgaste político, mas de resultados mais difíceis.
Hoje ele é depoente histórico de dois pontos sensíveis da história de Juazeiro e até mesmo do Brasil. O primeiro, local, diz respeito à visão de Francisco Dias Sobreira, falecido em 1970, e José Tavares Pirajá, falecido em 1965, ambos responsáveis por demarcar, no mapa do Juazeiro de então, um local de encontro movimentado pelo comércio.
O outro é nacional: políticas públicas continuadas não combinam com gambiarras permanentes. O Mercado do Pirajá foi a resposta à demanda dos feirantes que queriam trabalhar, mas não encontravam espaço no Mercado Central, e seu sufocamento não poderia ter sido a resposta aos que desejavam também tirar dali o seu sustento. O feirante, nessa cadeia de eventos, é o elo mais fraco e que menor responsabilidade tem.
Encerro este artigo fazendo votos pelo reerguimento do Mercado do Pirajá, uma tarefa monumental, mas necessária, e por uma melhor reflexão da população diante de medidas políticas que, muitas vezes disfarçadas de ações emergenciais ou simplesmente de “bondade” e “acolhimento” das demandas populares, sem planejamento e senso de continuidade — bases da boa governança pública —, geram problemas colossais, geralmente caros de resolver, e que serão sanados justamente com o dinheiro do povo.
REFERÊNCIAS
Entrevista de Abel Sobreira Neto concedida a Roberto Júnior, 2019.
SOBREIRA, Maria Ivonisete. Origem do Bairro Pirajá. História de Juazeiro, Juazeiro do Norte, 5 jun. 2011. Disponível em: https://historiadejuazeiro.blogspot.com/2011/06/origem-do-bairro-piraja-por-maria.html?m=1. Acesso em: 21 abr. 2026.
SALVIANO, Manoel. Manoel Salviano: uma vida de lutas, trabalho e sucesso. [S.l.: s.n.], [s.d.].
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Manoel Salviano Sobrinho – Digitalização de Roberto Júnior
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