Hoje faço uma homenagem a Capistrano de Abreu, cearense e um dos maiores historiadores do seu tempo. Em busca de boas fotos dele, vasculhei a Hemeroteca da Biblioteca Nacional e cheguei às fotos de seu velório, ocorrido em sua biblioteca, na casa da Travessa Honorina, n° 45 (hoje Rua Capistrano de Abreu, n° 45, em Botafogo, no Rio de Janeiro), onde passou a maior parte da vida, em uma época de pesquisa integralmente analógica.
Sobre a paixão de Capistrano de Abreu por livros, muitos causos se contam, inclusive o de sua visita a um amigo da zona rural, cujo telhado do casarão desabou após a queda de um raio. Preocupado, adentrou os escombros, pois não tinha encontrado o proeminente historiador e receava pelo pior. Capistrano estava no quarto, deitado na rede, lendo, abstraído, resumindo sua reação a um mero: “Que trovão danado, hein?!”
Ao ver Capistrano sendo velado em sua biblioteca, lembrei de O Pranto dos Livros, de Antônio Cândido:
“Morto, fechado no caixão, espero a vez de ser cremado. O mundo não existe mais para mim, mas continua sem mim. O tempo não se altera por causa da minha morte, as pessoas continuam a trabalhar e a passear, os amigos misturam alguma tristeza com as preocupações da hora e lembram de mim apenas por intervalos. Quando um encontra o outro, começa o ritual do ‘veja só’, ‘que pena’, ‘ele estava bem quando o vi a última vez’, ‘também, já tinha idade’, ‘enfim, é o destino de todos’.
“Os jornais darão notícias misturadas de acertos e erros e haverá informações desencontradas, inclusive dúvida quanto à naturalidade (…).
Aliás, há quem diga que teve jeito de medalhão desde moço. Muito convencional. Mas é verdade que fugia da publicidade, recusava prêmios e medalhas quando podia e não gostava de homenagens. Contraditório, como toda a gente. O fato é que havia em torno dele muita onda, e chegou-se a inventar que era uma ‘unanimidade nacional’. No entanto, foi sempre atacado, em artigos, livros, declarações, e contra ele havia setores de má vontade, como é normal. Enfim, morreu. Já não era sem tempo, e que a terra lhe seja leve. (…)
Enquanto isso, havia outros seres que pensavam em mim com uma tristeza de amigos mudos: os livros.
De vários cantos, de vários modos, a minha carcaça, que evitou a decomposição por meio da combustão, suscita o pesar dos milhares de livros que foram meus e de meus pais, que conheciam o tato da minha mão, o cuidado do meu zelo, a atenção com que os limpava, mudava de lugar, encadernava, folheava, doava em blocos para serviço de outros. Livros que ficavam em nossa casa ou se espalhavam pelo mundo (…)
todos sentindo pena do amigo se desfazer em mero pó e lembrando os tempos em que viviam com ele, anos e anos a fio. Então, dos recantos onde estão, em estantes de ferro e de madeira, fechadas ou abertas, bem ou maltratados, usados ou esquecidos, eles hão de chorar lágrimas invisíveis de papel e de tinta, de cartonagem e percalina, de couro de porco e pelica, de couro da Rússia e marroquim, de pergaminho e pano.
Será o pranto mudo dos livros pelo amigo pulverizado, que os amou desde menino, que passou a vida tratando deles, escolhendo para eles o lugar certo, removendo-os, defendendo-os dos bichos e até os lendo. Não todos, porque uma vida não bastaria para isso, e muitos estavam além da sua compreensão, mas milhares deles. Na verdade, ele os queria mais do que como simples leitura. Queria-os como esperança de saber, como companhia, como vista alegre, como pano de fundo da vida precária e sempre aquém. Por isso, porque os recolheu pelo que eram, os livros choram o amigo que atrasava pagamentos de aluguel para comprá-los, que roubava horas ao trabalho para procurá-los, onde quer que fosse: nas livrarias pequenas e grandes (…)
O amigo que, não sendo Fênix, não renascerá das cinzas a que está sendo reduzido, ao contrário deles, que de algum modo viverão para sempre”.


